domingo, 11 de setembro de 2016

O prazer de estar com quem nos conhece bem

    Por muito tempo eu senti necessidade de abrir meus horizontes, de conhecer novas histórias, de viver novas experiências. Meu momento era aquele. Curtir o novo, o inesperado, o desconhecido. Vivia na busca incessante do que eu considerava vida, do que eu esperava que seria a vida. Não fazia ideia do que queria pra mim, mas queria naquele exato momento, queria o quanto antes. 
      Hoje percebo o quanto desvalorizei pessoas conhecidas, momentos inesquecíveis e até mesmo os cotidianos que não cansamos de repudiar, mas que tanto nos faz falta. Desvalorizei até perder. Desvalorizei o café da manhã que minha mãe levava na cama, até ter que acordar todos os dias quarenta minutos antes do meu horário habitual para poder preparar qualquer coisa pra comer antes de sair atrasado. Desvalorizei as orações que minha mãe me dizia todas as vezes que saía de casa até sair apressado antes de ir para um plantão e ver um jovem rapaz morto dentro de um carro abandonado na rua do lado da minha casa. Desvalorizei os almoços de domingo em família na casa do meu avô até almoçar, sozinho, biscoito com coca cola, vários domingos seguidos. Desvalorizei os choros da minha irmã mais nova querendo companhia até sentir saudade de um abraço, daquele abraço que só ela sabe dar. Desvalorizei o mal humor matinal da minha irmã mais velha até acordar sozinho e não ouvir nada além dos barulhos que eu mesmo emitia. 
      Mas hoje eu tive o imensurável prazer de estar com quem me conhece bem. Ao chegar no meu pedacinho do céu aqui na terra, na casa dos meus avós, eu encontrei sorrisos enormes, abraços apertados, meu quarto limpo só me esperando, meu guarda roupa, que normalmente guarda lençóis de cama quando não estou aqui, vazio e pronto para que eu usasse. Encontrei água com limão assim que eu acordei, ovos mexidos no café da manhã, tapioca com aveia, doce de leite, bolo gelado, um lençol grosso e um travesseiro fino na minha cama, o controle da central de ar na minha cabeceira, aquela conversa de fim de tarde sentado na varanda como só meu avô sabe ter. Aquele abraço apertado da minha avó que conforta o coração. 
      Talvez tenha sido necessário partir para hoje valorizar o tesouro que tenho em casa, o amor que tenho guardado em outros corações. Talvez pra mim, que vivo em busca de sentimentos fortes, tenha sido necessário sentir a amarga e forte dor da saudade para hoje valorizar esse amor tão bom que eu recebo sem precisar dar nada em troca.

(10/07/2016)

Um comentário:

  1. Abri o blog para ler textos mais antigos e fiquei bem feliz ao ver que tinha um novo.
    Mais um belo texto.
    É incrível como passamos a enxergar algumas situações de um modo diferente quando elas não fazem mais parte da rotina. Passamos a entender melhor a razão de cada coisa, a importância que aqueles pequenos gestos tinham.
    A volta pra casa sempre tem um gosto diferente.
    Renova.

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