Eu já conhecia o roubador de ideias há algum tempo, já sabia que ele havia colocado sua profissão em prática algumas vezes, mas seus furtos anteriores não haviam me chamado atenção e nem eram dignos de serem lembrados. Porém, esse eu sou obrigado a lembrar, sou obrigado a destacar, pois é de suma importância para mim. Uma ideia roubada que me trouxe várias outras ideias.
Conheci o roubador de ideias no último ano do ensino médio. A minha primeira impressão sobre ele foi a pior possível. Eu não podia ao menos ouvir seu nome que me sentia muito incomodado, mas essa primeira impressão foi destruída e um novo conceito nasceu em mim no decorrer dos longos dias referentes aos primeiros seis meses daquele ano.
Após ter conquistado todos os meus colegas e amigos, ele, com todas as suas façanhas e performances de um verdadeiro e profissional ladrão, se aproximou de mim. Com sua atuação profissional, ele não só se tornou meu amigo, mas o melhor deles. Em pouquíssimo tempo eu confiava nele como em nenhum outro amigo cuja história de amizade era longa e sólida.
Fazia com ele viagens, em sonhos, pensamentos e livros, que antes eu me sentia deprimido e melancólico ao fazê-las sozinho. Pensava que nunca encontraria uma pessoa que pudesse me acompanhar nessas viagens, mas, em um dos seus raros momentos de sinceridade no seu árduo trabalho de roubar ideias, ele se juntou a mim e viajou, por diversas vezes, em sonhos impossíveis, pensamentos mirabolantes e livros mágicos.
Em uma incrível e entediante quarta-feira, na aula mais mágica e indesejável, eu estava distante, viajando pelos mais longínquos e inacreditáveis pensamentos, que me levavam em diversos lugares, principalmente para o nada. Nessa minha magnífica viagem no mundo dos pensamentos, enquanto minha querida e adorável professora ministrava sua cativante aula e os alunos dormiam, conversavam ou viajavam, como eu... O quê? Não acredito! Quem? Eu? Ah! Que mágico! Uma ideia. Eu tive uma ideia no momento mais inesperado e inimaginável.
Mas, o que fazer com uma ideia novíssima e tão inovadora? Claro, o óbvio. Contar a uma pessoa de confiança. Contar ao meu melhor amigo para que, juntos, pudéssemos colocá-la em prática. Em meio a risos de felicidade e suspiros de orgulho, eu esperei a aula terminar para contar ao meu melhor amigo uma ideia maluca que havia acabado de florescer na minha mente. Ao toque do final da aula, eu corri, chamei-o para um lugar reservado na sala e contei-lhe minha tresloucada ideia:
- Um livro!
- O quê?
- Sim, claro! Um livro.
- Mas...
- Não, sem mais nem menos. Vamos escrever um livro. Eu escrevo o meu, você escreve o seu e depois cada um mostra o resultado ao outro.
- É... Ta certo! Mas escrever sobre o quê? Livro é coisa séria.
- Ah! Sei lá, depois a gente pensa. Combinado?
- Combinado!
Eu já conhecia vários de seus furtos, até mesmo já havia sido vítima de alguns, mas essa ideia ele não podia roubar, essa, o roubador de ideias seria incapaz de roubar.
No dia da minha aula favorita, após dois longos dias de espera e ansiedade para contar à minha professora de redação minha mais nova, brilhante e inusitada ideia, algo raro ocorreu, eu me distraí e não a contei no início da aula, quando me dei conta de que a professora já estava na sala o roubador de ideia vem até mim e fala:
- Eu contei.
- O quê?
- Sobre o livro, à professora.
- Ah, sem graça. Eu queria contar. Ela iria adorar saber que eu quero escrever um livro. Mas tem nada, não. Você disse que a ideia era minha?
Antes mesmo que ele raciocinasse e pensasse em uma resposta, nossa professora veio até ele e disse:
- Incrível sua ideia de escrever um livro. Achei maravilhosa. Pouquíssimos alunos meus têm tamanho interesse em minha matéria a ponto de se envolver tanto com os assuntos dados em sala. Você está de parabéns.
- Obrigado, professora! – disse o roubador de ideias, com uma expressão cínica e cheia de satisfação que enchia seu rosto, por mais um sucesso em seus furtos.
Depois desse breve diálogo, a professora saiu de onde estávamos e foi iniciar a aula. Um misto de sentimentos me invadiu e me dominou naquele momento e, vez por outra, eu ouvia alguns risos discretos vindos da carteira posterior à minha, a do roubador de ideias, o que aumentava ainda mais a minha raiva. Mas eu não podia iniciar uma discussão na hora da aula, jamais poderia atrapalhar a aula para reivindicar, diante de todos, os direitos sobre minha ideia roubada. No mínimo eu seria expulso de sala e ridicularizado por iniciar uma briga, por atrapalhar a ordem da sala e testar a moral da professora em um rígido colégio de freiras. Tinha que me segurar e esperar, friamente, o término da aula, ouvindo as discretas gargalhadas do roubador de ideias.
Quando, finalmente, a aula terminou, levantei-me e comecei a expulsar todos os sentimentos que me perturbaram durante a aula:
- Seu covarde! Nunca imaginei que você, logo você, seria capaz de fazer isso comigo. Amigo da onça! Você não é meu amigo, nunca foi. Você é amigo da onça! – eu gritava e falava coisas que nunca, antes, pensei dizer a ele.
- O que eu fiz? – perguntava como se fosse uma vítima de um louco ataque de histeria.
- O que você fez? Cínico! Você é cínico, covarde e amigo da onça!
Alguns amigos nossos já haviam nos rodeado para saber o que se passava e a causa dos meus insultos:
- O que está acontecendo aqui? – perguntou um amigo.
- Esse covarde me roubou. Disse à professora que ele havia tido uma ideia que, na realidade, era minha. – respondi mais calmamente.
O roubador de ideias, usando algumas de suas façanhas para escapar da denúncia falou:
- Se você quiser a gente a procura e eu digo que a ideia era sua.
- Ela nunca vai acreditar. Vai pensar que você está sendo amigo ao compartilhar suas ideias. – falei decepcionado e triste.
- Nada disso!
- Você é um ladrão. Um roubador de ideias. Espera um pouco...
- O que foi? – perguntou.
Toda aquela discussão havia me dado criatividade. Eu tive uma ideia que completava perfeitamente a anterior.
- Eu tive uma ideia. Vou escrever sobre você, claro! O roubador de ideias. Eu não sabia o que escrever, mas agora eu sei. Vou escrever um conto ou quem sabe até mesmo um livro.
Ele ficou espantado ao notar minha incrível rapidez para criar e, ao mesmo tempo, decepcionado por não poder roubar aquela ideia, por não conhecer nenhum roubador de ideias que o inspire mais que o roube. E eu fiquei feliz por saber que ele era meu melhor amigo até nos momentos que não queria ser.
Ao meu melhor amigo, Gustavo Soares de Alencar.
Íkaro Murilo e Nascimento
09/07/2009
