Quando eu viajo eu tenho a sensação de ter o mundo em minhas mãos. Vejo as coisas passando tão depressa nas janelas, como a vida de quem não vive, de quem não sente. Como os dias de quem só trabalha, como os sonhos de quem não tenta. Quando eu viajo vejo o céu, sempre tão sereno e calmo, independente da minha velocidade, como a vida de quem ama. D e v a g a r i n h o... Meio que olhando a correria aqui embaixo e sorrindo de mansinho, como quem vai pedir um carinho. Quando eu viajo vejo as cidades como que nos mapas. Tentando descobrir as ruas, tentando descobrir as vidas, olhando pras pessoas e imaginando um final feliz pra cada uma. Tem aquelas cidades que me dão vontade de passar a 10km por hora, mas tem aquelas que o convite é ir embora. Quando eu viajo eu gosto de olhar as pessoas. Fico olhando os comportamentos, escutando as histórias. Tão bonitas, às vezes tão verdadeiras. Mas não costumo julgar. Gosto apenas de ouvir. Quando eu viajo eu gosto de olhar a cor das cidades. E mesmo com o fumê do vidro da janela, quando a cor de algum lugar está tão apagada, eu consigo vê-la no rosto das pessoas. Geralmente bem sofridos. Quando eu viajo gosto de olhar pras casinhas e imaginar as histórias. Tantas. Algumas tão bonitinhas que me dão vontade de ficar alí. Parar minha correria, bater na porta, puxar a cadeira, pedir um café, sorri pra senhorinha que coloca o café com a mão já tremendo, tão simples, e perguntar um pouco da sua vida. "Pode começar de onde a senhora quiser, eu tenho tempo, to só viajando, por aí, sem hora pra chegar." Quando eu viajo eu me sinto tão livre. Um pouco homem, um pouco pássaro, um pouco menino. Deixo as preocupações guardadinhas em algum lugar de onde saí, preparado pra viver mais, de novo, sem medo. Quando eu viajo me sinto tão forte, tão alegre. É como se chegar ao meu destino não fosse o meu maior objetivo. No fim, a dor da despedida da viagem é maior do que na partida. É como se tudo o que eu viver em uma cidade, pudesse ser vivido novamente, ou pelo menos coisas muito parecidas. E quando eu viajo, as sensações são únicas. Tudo o que eu conseguir aproveitar e viver naqueles breves momentos, serão só alí. Acontecerão só aquela vez. Eu me sinto tão bem quando eu viajo...
sexta-feira, 31 de agosto de 2012
quarta-feira, 1 de agosto de 2012
Cliques da alma
E a fotografia dessas férias, de novo um menino, mais uma vez deixou marcas em mim.
O que é um médico senão um servidor? Um servidor da vida, do próximo, do semelhante, do frágil. Hoje, ainda um simples e sonhador estudante de medicina, penso em fazer mais, fazer diferente. Mas, diferente como? De quem? Como ser forte o suficiente para não deixar a frieza necessária e saudável à minha profissão ser maior que eu, que meus princípios, que meus sonhos?
Aprendi a suturar. Um nó apenas, mas já um bom começo.
- Vai lá Doutor, essa você consegue. Mostra que aprendeu de verdade.
- Doutor, é? Falta tanto ainda...
- É um rapazinho que caiu, bateu a cabeça na calçada e está com um corte. Mas é pequeno, você tira de letra.
- Ta certo, manda o grandão entrar.
- Oi Doutor, já sangrou tanto. Mas ele ainda não chorou. Estou preocupada.
- Ainda não chorou? E me disseram que era uma criancinha que ia entrar, se eu soubesse que era um homem, tinha pesquisado alguma coisa sobre futebol pra conversar. Deixa eu ver esse corte... Rapaz, se fosse em mim eu ainda estaria chorando. É um homem mesmo. Ele tem alergia a algum medicamento, senhora?
- Tem não senhor.
- Ta certo. E medo de agulha?
- Também não.
E em meio à tranquilidade, o caos. Estávamos na sala de urgência do maior hospital de uma cidade de 180 mil habitantes, no interior do Pará. No meio da conversa, entra toda a equipe de enfermagem e um dos médicos de plantão com um homem todo esfaqueado, sangrando litros. O médico que me acompanhava no pequeno procedimento teve que ir se juntar, às pressas, à equipe que cuidava do homem esfaqueado. A mãe do garotinho teve que sair da sala. E só ficou eu e meu pequeno companheiro, de apenas 10 anos e que tanto se fazia de forte. Eu já estava com as luvas na mão e com todo o material de sutura preparado. Aquele seria o meu terceiro procedimento. Sorri meio sem graça para o meu parceirinho, que estava deitado e com cara de desespero, por causa da movimentação. "Agora somos só eu e você. Boa sorte para nós", pensei. Respirei fundo, fiz cara de quem dominava a situação e comecei o procedimento.
- Força garotão, agora vai doer um pouco. Mas vai ser rapidinho, é só a anestesia.
E o homenzinho nada de chorar. Aguentou firme as agulhadas no corte da cabeça e a dor da anestesia, que poucos suportam sem gritar. O pequeno corte levou apenas dois pontos. O pior era o movimento dos dois médicos, do enfermeiro e dos dois técnicos que cuidavam do homem que berrava na sala. Tudo o que eu havia aprendido ia até ali. Aprendido na prática, nada na faculdade ainda. Das outras duas vezes eu havia feito os pontos e os técnicos finalizavam o procedimento. Limpavam e faziam o curativo. Eu não sabia fazer isso. Ninguém para me ajudar. E a cada minuto, a cada grito de dor do homem ao nosso lado, meu pequeno amigo ficava mais angustiado e eu me sentia mais impotente, sem forças, incapacitado de ajudar meu parceirinho, de livrá-lo daquele show de horror.
O terceiro médico do plantão estava fazendo algumas anotações na sala anexa, como se nada acontecesse.
- Doutor, o senhor pode me ajudar? Está faltando finalizar a sutura de um garotinho aqui do lado e eu não sei fazer e todos estão cuidando do homem esfaqueado e eu estou preocupado com o garotinho que esta vendo e ouvindo tudo, deitado na maca.
- Eu não vou. Isso é função do técnico de enfermagem, pensei que você tivesse aprendido isso na universidade.
- Eu sei doutor, mas os técnicos daqui estão ajudando os outros médicos aqui do lado.
- Então espere.
Voltei pro lado do meu companheiro, sem poder fazer nada. Chamei o técnico e fiquei ali, parado. "Vai terminar daqui a pouco, você vai já pra casa". As lágrimas nos olhos daquele rapazinho que havia aguentado todas as dores sem ao menos falar foram a minha resposta. Quinze longos minutos ouvindo gritos e barulhos de correria se passaram até o meu pequeno amigo ficar livre de tudo aquilo.
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