terça-feira, 16 de outubro de 2012

Há um ano...


      Há um ano eu precisei falar. Precisei tanto que não me contentei em apenas falar para mim mesmo em frente ao espelho e tentar me entender ouvindo dois ou três ou quatro pensamentos meus que vinham bagunçados, desorganizados e me deixava cada vez mais confuso, mais inseguro, mais incerto de tudo.
      A solidão, aquela solidão que sempre me salvou, que sempre me fez bem, que sempre me fortaleceu e me protegeu, há um ano, me amedrontou. Essa mesma solidão, minha companheira em tantos momentos, me assustou a ponto de me fazer querer companhias. A ponto de eu temer noites no escuro sem ter com quem compartilhar o medo, os pensamentos, os anseios, os sonhos. Mas não tinha muito o que se fazer. Eu precisava ficar sozinho, precisava ardentemente colocar minhas ideias no lugar, analisar a vida de um ângulo diferente e poder raciocinar da forma correta.
       Há um ano eu passei a ser meu psicólogo de uma forma diferente. A tentar me entender de uma forma diferente. Sempre escrevi, sempre gostei de escrever. Milhares de textos meus se perderam nas esquinas da vida, nos papeis de balas, nos pedaços de papel que eu encontrava por aí. Milhares. Há um ano, sozinho, eu tive uma ideia diferente. Continuei, é verdade, a escrever meus textos no calor do momento, relendo sem me permitir mudar uma vírgula sequer depois, mas com uma diferença gigantesca: eu passei a reler todos os meus textos e a me entender de uma forma como eu nunca havia me entendido.
      Eu, o maior frequentador do meu blog, confesso, me surpreendo, não raramente, com as coisas que eu mesmo escrevo. Uma vez cheguei até a pensar: "Caraca, nunca tinha visto nada por esse ângulo. Isso é verdade mesmo." Há um ano eu venho intensificando minha característica, até agora ímpar, de escrever algo e imediatamente me desprender do que escrevi e, muitas vezes, me surpreender. Talvez por isso eu não consiga mudar meus textos depois de escritos. Eu sinto como se não fossem mais meus. No máximo mudo um erro de português, uma vírgula ou alguma concordância. No mais, não tenho direito de mudar. Quem sou eu hoje para discutir com o que eu pensava ontem? Todos temos o direito de pensar da forma que quisermos, até mesmo eu há cinco minutos atrás.
       Hoje, tentando me ver há um ano, percebo a diferença gigantesca que existe entre esses dois Murilos. Tenho certeza que se colocassem os dois, um em frente ao outro, seriam incapazes de se reconhecerem como a mesma pessoa. Um ano se passou e junto com ele uma pancada de coisas se somou às minhas experiências de vida e me transformou profundamente. Talvez por ter colocado em prática a minha listinha de coisas que sempre sonhei em fazer depois que entrasse na universidade, talvez por ter vivido tão intensamente e de forma tão aberta esses meses todos, querendo aprender de verdade com a vida, vivendo cada dia, cada momento, cada aprendizado. Ou talvez simplesmente porque ter completado duas décadas de vida fez uma diferença gigantesca em mim. Só talvez.
      Nesse ano que se passou tantos textos foram escritos, tantos foram apagados, tantas historias foram vividas, tantas loucuras cometidas, tantos erros, deslizes, sofrimentos, prazeres, medos.
      Com meu blog, meus grandes amigos me apoiaram bastante, como sempre fazem: "Não te dou dois meses para você desistir dele. Não faz seu estilo." Obrigado, queridos amigos, pela força de sempre. E vejam só! Sintam orgulho de mim, o mesmo orgulho que eu estou sentindo. Um ano. Um longo ano. Um conturbado ano. Um maravilhoso ano.
      Há um ano também, ou um pouco mais que isso, ou um pouco menos, eu fui desafiado. Os desafios dos psicólogos. Aqueles desafios que duram a vida inteira, sabe? Que fazem você mudar radicalmente sua vida para conseguir cumpri-los. E nesse tempo todo, eu estou conseguindo cumprir esse desafio. O desafio de ir contra a minha natureza e "ir até o fim" em tudo. Quando é o final? Não sei. Mas podemos descobrir juntos. E desistir? Essa palavra está sendo erradicada do meu vocabulário.
      Mas eu tenho que confessar uma coisa para você. Eu já pensei, uma ou duas vezes, que eu já tinha chegado ao fim da vida útil do meu blog, afinal, quem diz onde é o fim sou eu. Mas por você, é, por você, você que não me conhece, que não faz a mínima ideia de quem e como eu sou, por você que já leu mais de um dos meus textos. Por você que chegou perdido, sem saber o que fazia aqui, mas parou um pouquinho, leu uma ou duas palavras, depois se ajeitou em frente ao computador e quis terminar de ler o texto. Depois leu outro. E outro dia entrou de novo para ler mais um. Por você eu entendi que o meu blog não tinha chegado ao final. Eu entendi que eu não estava mais escrevendo como sempre escrevi, para mim mesmo. Entendi que eu podia ajudar mais uma ou duas pessoas com essas minhas histórias reais que tanto parecem ficção.
      E entendi que no final de tudo é isso que a gente tenta fazer a vida inteira, não é mesmo? Tentar mudar o mundo. Nem que seja o seu mundo, caro leitor, por dois ou três minutos. Entendi que não adianta ouvir o que as pessoas más têm a dizer sobre você. Elas só querem te ver para baixo. Usarão tudo o que puderem para conseguir isso. Entendi que devemos ouvir, sim, aqueles que, sempre tímidos, confessam que prestam atenção em você e que, mesmo você não percebendo, estão sempre ali.
      Entendi também que eu não escrevo para quem eu quero que leia. Eu escrevo para mim e para você, é, de novo você que entra no meu blog sem nenhuma obrigação e que já é tão íntimo meu. E é para nós, eu e você, que eu escrevo. Nós que gostamos de ler. Nós que gostamos de tentar entender o outro. Nós que ficamos acordados mais quinze ou vinte minutos da madrugada só para ouvir a vós baixinha de um autor que tanto nos quer dizer em seus textos. Nós, eu e você, que somos totalmente diferentes da maioria das outras pessoas. Nós, que vivemos com pessoas tão diferentes, somos, mesmo, muitas vezes, sem nos conhecermos, tão parecidos. E é para nós que eu dedico esse um ano do meu blog.
      E é para nós, também, que eu dedico todo o trabalho que tive em mudar o blog. Sim, o trabalho. Porque escrever nunca é um trabalho para mim. Juro. Nunca foi. E no dia que passar a ser, eu paro. No dia que passar a ser um trabalho ou uma obrigação, nesse dia sim, chegou o final do blog. Mas por hora, e por mais um ano, ou dois, ou dez, estamos aqui mais uma vez. Eu e você. Parabéns para nós.