Eu continuo com a minha terrível mania de guardar coisas que momentaneamente julgo importantes. Esses dias meu pai me pediu o documento de posse do meu carro, falei que ia procurar mas, me permiti fazê-lo com calma em algumas das gavetas ou caixas que acumulo em casa cheio de pastas, documentos, cartas, chaveiros, histórias...
Não estava em nenhuma das pastas, me restou procurar em uma pequena caixa de alumínio em formato de lancheira de colégio coberta por adesivos de caderno que eu tenho desde o ensino fundamental e onde venho acumulando lembranças desde então. Lembro que por algum motivo guardei nela um pequeno refil de perfume e todas as vezes que abro, sobe um cheiro maravilhoso que me leva imediatamente ao primeiro dia que a vi. Já está tão cheia que ao abrir parece que as coisas vão saltar de dentro. Mas ainda cabe um pedacinho de mim para eu lembrar, um pedacinho de mim pra eu nunca esquecer.
Fui tirando aos poucos cada um dos objetos e recordando das longas histórias que cada um deles tem pra contar. São chaveiros, miniaturas, cartões postais, post its, cartas, bilhetes, listas, presentes de amigos, da minha mãe, do meu avô, de ex namoradas, ex ficantes, de pessoas que marcaram a minha vida de alguma forma. São pedaços concretos de minha vida que contam a minha própria história, como se eu não precisasse ter vivido tudo ou nada daquilo pra saber.
Acho que por isso eu guardo aquelas coisas. Porque toda vez que abro a caixa, é como se ela não fosse minha. Ou como se eu pudesse viajar no tempo e espaço, e cada ítem guardado fosse minha passagem para voltar praquele exato momento.
É como se eu pudesse voltar ao Cristo Redentor pegando naquele chaveiro que há quase seis anos está embalado como no dia que comprei. Como se eu pudesse voltar em cada ponto turístico de Manaus ao olhar as fotografias dos folhetos guardados. Ou como se eu pudesse voltar ao memorial de Chico Mendes no Acre tocando no chaveiro que comprei na lojinha da entrada do parque. Ou como se eu pudesse reviver o dia que meu avô disse que queria que ficasse comigo a miniatura de uma arma que ele usava como amuleto desde que comprou na primeira viagem que fez a São Paulo com 23 anos de idade.
Um discreto sorriso de canto de boca até denuncia as aventuras de cada história. Como esquecer o medo de passar no meio daquela favela no Rio de Janeiro que o GPS mostrava como melhor rota? Ou como não lembrar dos 45 minutos preso em um ônibus no Acre por causa da chuva que começou do nada, alagou todas as ruas da cidade a ponto de nenhum carro conseguir andar e acabou da mesma forma que começou e em menos de uma hora a cidade e as pessoas andavam como se nada tivesse acontecido? Ou daquele suco de taperebá na rodoviária de Belém que tinha um gosto maravilhoso de cajá, até eu descobrir que são a mesma coisa? Ou a pena que senti do urso, forte guerreiro, que suporta o calor de Teresina há anos no zoológico da cidade?
Nesses tempos de sentimentos e pessoas fugazes, me dá um prazer enorme falar das coisas que ficam. É bom saber que nada que eu vivi foi em vão e que cada pedacinho de mim conta a minha própria história. E no final, achei o documento do meu carro, guardei tudo de novo na caixinha e a fechei com aquela felicidade sem explicação e sem sentido. Fiquei apenas com o desejo da caixinha caber mais 10 anos de histórias e lembranças.
