quarta-feira, 14 de setembro de 2016

Das coisas que ficam

      Eu continuo com a minha terrível mania de guardar coisas que momentaneamente julgo importantes. Esses dias meu pai me pediu o documento de posse do meu carro, falei que ia procurar mas, me permiti fazê-lo com calma em algumas das gavetas ou caixas que acumulo em casa cheio de pastas, documentos, cartas, chaveiros, histórias... 
      Não estava em nenhuma das pastas, me restou procurar em uma pequena caixa de alumínio em formato de lancheira de colégio coberta por adesivos de caderno que eu tenho desde o ensino fundamental e onde venho acumulando lembranças desde então. Lembro que por algum motivo guardei nela um pequeno refil de perfume e todas as vezes que abro, sobe um cheiro maravilhoso que me leva imediatamente ao primeiro dia que a vi. Já está tão cheia que ao abrir parece que as coisas vão saltar de dentro. Mas ainda cabe um pedacinho de mim para eu lembrar, um pedacinho de mim pra eu nunca esquecer. 
      Fui tirando aos poucos cada um dos objetos e recordando das longas histórias que cada um deles tem pra contar. São chaveiros, miniaturas, cartões postais, post its, cartas, bilhetes, listas, presentes de amigos, da minha mãe, do meu avô, de ex namoradas, ex ficantes, de pessoas que marcaram a minha vida de alguma forma. São pedaços concretos de minha vida que contam a minha própria história, como se eu não precisasse ter vivido tudo ou nada daquilo pra saber. 
      Acho que por isso eu guardo aquelas coisas. Porque toda vez que abro a caixa, é como se ela não fosse minha. Ou como se eu pudesse viajar no tempo e espaço, e cada ítem guardado fosse minha passagem para voltar praquele exato momento. 
      É como se eu pudesse voltar ao Cristo Redentor pegando naquele chaveiro que há quase seis anos está embalado como no dia que comprei. Como se eu pudesse voltar em cada ponto turístico de Manaus ao olhar as fotografias dos folhetos guardados. Ou como se eu pudesse voltar ao memorial de Chico Mendes no Acre tocando no chaveiro que comprei na lojinha da entrada do parque. Ou como se eu pudesse reviver o dia que meu avô disse que queria que ficasse comigo a miniatura de uma arma que ele usava como amuleto desde que comprou na primeira viagem que fez a São Paulo com 23 anos de idade. 
      Um discreto sorriso de canto de boca até denuncia as aventuras de cada história. Como esquecer o medo de passar no meio daquela favela no Rio de Janeiro que o GPS mostrava como melhor rota? Ou como não lembrar dos 45 minutos preso em um ônibus no Acre por causa da chuva que começou do nada, alagou todas as ruas da cidade a ponto de nenhum carro conseguir andar e acabou da mesma forma que começou e em menos de uma hora a cidade e as pessoas andavam como se nada tivesse acontecido? Ou daquele suco de taperebá na rodoviária de Belém que tinha um gosto maravilhoso de cajá, até eu descobrir que são a mesma coisa? Ou a pena que senti do urso, forte guerreiro, que suporta o calor de Teresina há anos no zoológico da cidade? 
      Nesses tempos de sentimentos e pessoas fugazes, me dá um prazer enorme falar das coisas que ficam. É bom saber que nada que eu vivi foi em vão e que cada pedacinho de mim conta a minha própria história. E no final, achei o documento do meu carro, guardei tudo de novo na caixinha e a fechei com aquela felicidade sem explicação e sem sentido. Fiquei apenas com o desejo da caixinha caber mais 10 anos de histórias e lembranças.

domingo, 11 de setembro de 2016

O prazer de estar com quem nos conhece bem

    Por muito tempo eu senti necessidade de abrir meus horizontes, de conhecer novas histórias, de viver novas experiências. Meu momento era aquele. Curtir o novo, o inesperado, o desconhecido. Vivia na busca incessante do que eu considerava vida, do que eu esperava que seria a vida. Não fazia ideia do que queria pra mim, mas queria naquele exato momento, queria o quanto antes. 
      Hoje percebo o quanto desvalorizei pessoas conhecidas, momentos inesquecíveis e até mesmo os cotidianos que não cansamos de repudiar, mas que tanto nos faz falta. Desvalorizei até perder. Desvalorizei o café da manhã que minha mãe levava na cama, até ter que acordar todos os dias quarenta minutos antes do meu horário habitual para poder preparar qualquer coisa pra comer antes de sair atrasado. Desvalorizei as orações que minha mãe me dizia todas as vezes que saía de casa até sair apressado antes de ir para um plantão e ver um jovem rapaz morto dentro de um carro abandonado na rua do lado da minha casa. Desvalorizei os almoços de domingo em família na casa do meu avô até almoçar, sozinho, biscoito com coca cola, vários domingos seguidos. Desvalorizei os choros da minha irmã mais nova querendo companhia até sentir saudade de um abraço, daquele abraço que só ela sabe dar. Desvalorizei o mal humor matinal da minha irmã mais velha até acordar sozinho e não ouvir nada além dos barulhos que eu mesmo emitia. 
      Mas hoje eu tive o imensurável prazer de estar com quem me conhece bem. Ao chegar no meu pedacinho do céu aqui na terra, na casa dos meus avós, eu encontrei sorrisos enormes, abraços apertados, meu quarto limpo só me esperando, meu guarda roupa, que normalmente guarda lençóis de cama quando não estou aqui, vazio e pronto para que eu usasse. Encontrei água com limão assim que eu acordei, ovos mexidos no café da manhã, tapioca com aveia, doce de leite, bolo gelado, um lençol grosso e um travesseiro fino na minha cama, o controle da central de ar na minha cabeceira, aquela conversa de fim de tarde sentado na varanda como só meu avô sabe ter. Aquele abraço apertado da minha avó que conforta o coração. 
      Talvez tenha sido necessário partir para hoje valorizar o tesouro que tenho em casa, o amor que tenho guardado em outros corações. Talvez pra mim, que vivo em busca de sentimentos fortes, tenha sido necessário sentir a amarga e forte dor da saudade para hoje valorizar esse amor tão bom que eu recebo sem precisar dar nada em troca.

(10/07/2016)

sábado, 10 de setembro de 2016

Ele pensa demais

      Aquela era uma quinta-feira não muito diferente de todas as outras. Uma manhã ensolarada e quente como só as manhãs maranhenses sabem ser. Saímos do hospital municipal às 07:30 após terminar o plantão noturno e evoluir os pacientes internados e passamos em casa para tomar banho e comer. "O que eu levo?" "O máximo que a gente puder, lá não tem muita coisa. Na gaveta do meio da estante da sala tem algumas caixas de medicamentos, pega alguns enquanto eu termino de me arrumar." "Ok." Saímos de casa e um pouco depois da cidade entramos em uma estrada de chão e fomos quilômetros a dentro. Sentado no banco de trás do carro eu olhava praquela paisagem de floresta amazônica aparentemente pouco explorada, mas com muitas histórias pra contar. Havia acordado emotivo naquele dia. Sentia falta de um só abraço, um só colo, tinha uma só saudade.
      A estrada não estava ruim. Uma poeira avermelhada subia com facilidade denunciando a falta de chuva. Lembrei do meu Ceará, lá isso me preocuparia. Mas aqui não. Terra da muitas facilidades. E injustiças. Alguns minutos depois, chegamos. O povoado havia crescido bastante desde a última vez que eu estive alí. Fui acompanhar meu pai em um acampamento na infância. Agora já estava tudo diferente, tinha uma escola de muro branco avermelhado pelas terras vermelhas do Maranhão e um posto de saúde. "Agora a gente tem dotô toda semana. Antes era um sofrimento, o senhor tinha de ver."
      Em frente a uma árvore de tronco largo e muita sombra, sentados em baixo da varanda de uma das poucas casas de alvenaria do povoado, havia cerca de 30 pessoas, sorridentes ao ver o carro chegar. O enfermeiro pegou o esfigmomanômetro e um estetoscópio que ele levou, eu peguei meu esteto, minha caneta e a sacola com os medicamentos. Meu pai já estava entrando, cumprimentava alguns novos amigos e recebia alguns abraços. Fui apresentado para alguns e recebi vários sorrisos de boas vindas. Sorri de volta e entrei.
      Na primeira sala havia uma mesa para a técnica de enfermagem com vários prontuários empilhados e duas cadeiras, uma em cada lado da mesa. Depois de passar pela cortina que separava as duas salas eu vi um filtro de barro em uma cadeira no canto com dois copos de alumínio em cima. Havia um quarto ao lado onde se guardavam os excessos e o cômodo seguinte era o consultório médico. No fundo da sala, encostado na parede de tijolos recoberta por cimento, havia uma cadeira acolchoada e uma mesa infantil, trazidas da nova escola do povoado. Em cima da mesa já tinham colocado alguns prontuários, receituário, solicitação de exames e uma ficha de encaminhamento. Ao lado um lixeiro e do outro lado uma cadeira de madeira com algumas espátulas dentro de um recipiente de plástico. Em frente à mesa uma cadeira azul que algum dos pacientes doou para o posto. O chão era de piso duro batido, mas não mais do que a vida daquelas pessoas. A iluminação vinha pela porta que dava acesso ao quintal aonde um papagaio muito simpático gritava "dotô" e pelas frestas no telhado por onde entravam raios de luz. E de esperança.
      Fomos embora à tarde depois de atendermos várias pessoas, e mesmo ali, naquele canto de sala, escrevendo sobre uma mesa infantil de escola, sem nada de básico que um local precisa ter para ser chamado de posto de saúde, fizemos o nosso trabalho. Porque, como eu estou aprendendo na universidade, esteja aonde eu estiver, minha conduta deverá ser sempre a mesma, obviamente adaptada à realidade do paciente e não do governo. Saí naquele dia com o dever e uma promessa a mim mesmo: ser um bom médico independente das escolhas alheias e nunca deixar de lutar, porque a partir de agora é que eu vou começar a ajudar de verdade as pessoas.
      Esses dias estava lendo o livro de Maurice Druon, "O menino do dedo verde" e duas passagens me chamaram atenção, a primeira que diz: "Ser médico é travar uma batalha ininterrupta. De um lado a doença, sempre a entrar no corpo das pessoas; do outro a saúde, sempre querendo ir embora." E no nosso país ainda precisamos acrescentar a injustiça, a impunidade, a improbidade administrativa e a má fé dos governantes ajudando a desequilibrar essa balança de forças e nos forçando a lutar ainda mais, a sermos ainda mais forte. A segunda passagem diz o seguinte: "- Aprendi - respondeu Tistu - que a medicina não pode quase nada contra um coração muito triste. Aprendi que para a gente sarar é preciso ter vontade de viver. Doutor, será que não existem pílulas de esperança?" Talvez existam, Tistu, talvez sejam essas pílulas que dão tanta força ao nosso povo tão sofrido. E talvez eu receba até feliz, como você recebeu, uma anotação no meu caderno ao final do dia: "É preciso vigiar de perto este menino; ele pensa demais!"




(28/07/2016)

segunda-feira, 28 de março de 2016

Dois "nuncas" em um só texto

Dos momentos que nunca esqueceremos:

Quando o dia 22/03 finalmente terminou eu respirei profundamente com aquela sensação de alívio que vem da alma. O meu dia havia sido massacrante. Uma rápida retrospectiva passou pela minha cabeça e me vi levantando novamente as 6 horas da manhã, preparando meu café da manhã ainda dormindo, começando a acordar na última garfada da banana amassada com granola e percebendo que eu já estava atrasado. Tomei um banho rápido e corri para o hospital de pediatria para meu segundo dia no novo rodízio do internato. Fui o último a chegar, mas nada havia começado ainda... Me vi visitando novamente os pacientes e descendo e subindo escadas para tirar fotos de prontuários e atualizar as informações para a staff que nos orientava. Ao final das evoluções, me vi novamente correndo até a oficina pra fazer os últimos reparos no carro antes da viagem. Isso, a viagem... Lembrar dela me fazia bem e com certeza foi o meu combustível durante todo o dia. E mesmo agora, quando lembro da sensação boa que a ideia de viajar me dava durante todo o dia, eu me sinto estranhamente feliz. Me vi novamente saindo correndo da oficina depois de quase uma hora e passando no supermercado para comprar um sal especial para uma prima. Nossa, ainda não acredito que enfrentei aquela fila gigantesca por um sal. Ou por uma prima? Depois me vi estacionando o carro as pressas na frente da agência matriz dos correios para pegar uma encomenda que havia chegado há poucos dias. Sem ter tempo de respirar corri pra casa para ajeitar o apartamento antes da viagem e fazer minhas malas. Por quê eu sempre deixo para fazer as malas em cima da hora? As vezes justifico pra mim mesmo que é porque posso ainda precisar de alguma coisa, então deixo para arrumar tudo no final. Balela! Sempre esqueço alguma coisa por deixar pra guardar tudo em cima da hora. Hoje mesmo esqueci o sabonete e o shampoo. Me vi organizando tudo no apartamento para diminuir a bagunça quando eu retornar, descendo com o lixo, com as malas, colocando água no carro e sendo simpático com o vizinho mais chato do prédio. Sai apressado e fui até a rodoviária pegar um amigo que já me esperava há quase 30 minutos para viajarmos juntos. Aproveitei cada minuto dos 10 que tive para almoçar e depois dirigi por 7 horas e 30 minutos até a minha cidade no interior do Ceará. Deixei meu amigo na casa dele, passei na farmácia para colocar crédito no meu chipe da única operadora que pega área na cidade e fui para o sítio onde meu avô mora, exausto. Sonhando com os abraços amorosos que só quem nos ama de verdade sabe dar. Já era quase 22:30h e eu respirava feliz por saber que dali a poucos minutos eu estaria em um dos melhores lugares do mundo pra mim. Meu primeiro lar, um dos lugares onde eu mais me sinto em casa. Me vi vindo pela estrada de chão, onde a única iluminação era a dos faróis do meu carro e as poucas casas que eu passava repousavam com a paz que só as casas dos sítios do interior sabem ter. Lembrei da sensação que eu tinha de que devia ter perguntado a alguém sobre a estrada, que devia ter ligado avisando que estava chegando, mas já era tarde, não pegava área da minha operadora e de toda forma eu já estava alí, não havia muita coisa para se fazer. Continuei. Quando completei dois terços da viagem cheguei em um local famoso em atolar carros em tempos de chuva. Não deu em outra. 22:30h, sozinho na escuridão de uma estrada deserta e meu carro não conseguia se mover um centímetro, ficando cada vez mais enterrado na lama em cada tentativa. Respirei uma, duas, três vezes, tentando oxigenar o cérebro para lembrar de alguma dica do que fazer, de algum vídeo que vi na internet, de alguma lição que aprendi durante a vida. Não tinha jeito. Tirei meus sapatos, abri a porta e desci. A lama de barro vinha na metade da minha perna, os pneus do carro estavam totalmente submersos, ainda pior com as tentativas que havia feito para tirá-lo dalí, sem sucesso. Abri o porta malas, peguei meus chinelos, meu carregador do celular, meu chipe, travei o carro e sai. Era minha única alternativa. Terminar a viagem a pé e tentar resolver com alguém, chegar em casa, dar alguma notícia, lavar os pés, respirar. Era longo o percurso coberto por lama. "Nunca que meu carro iria conseguir passar por aqui". Andei quase um quilômetro olhando atenciosamente para o chão tentando ser mais rápido do que qualquer cobra que pudesse encontrar, até parar e lembrar que eu não estava levando nada do que iria precisar. "E se não tiver como eu pegar meu carro ainda hoje?" Havia muita coisa para pegar antes de iniciar minha trajetória. Voltei pro carro para pegar meu quite de sobrevivência equipado com escova de dentes, creme dental, solução para lentes de contato, caixa de lentes e desodorante. Agora sim eu estava preparado para enfrentar a estrada molhada que me esperava naquela noite fria. Como quem não quisesse que eu terminasse minha trajetória, a lama ficou ainda mais escorregadia, acabei caindo e derrubando meu fiel companheiro que com seus flashs sendo usados como lanterna, iluminava minha noite. Voltei novamente pro carro, peguei o primeiro papel que vi e tirei o máximo de lama que pude do celular. Finalmente voltei pro meu percurso sem muito a temer. Poucos metros depois percebi meu celular vibrando. Milagrosamente a minha internet funcionou e pude conversar com uma prima e contar o ocorrido, avisar meu atraso e acalmar os corações que eu tinha certeza que já estavam apreensivos. Continuei, olhei pro céu e ainda puder ver um luar incrível, a terra molhada tinha um cheiro de infância maravilhoso e mesmo completamente sujo de lama e cansado, não encontrei motivos para reclamar. Quando já estava chegando, depois de alguns quilômetros de caminhada, fui recebido pelos abraços apertados e olhos cheios de lágrimas da minha avó e da minha madrinha, que estavam apreensivas já há algum tempo e me esperavam na estrada em frente de casa. Pude chegar em casa, respirar tranquilo, tomar banho, comer alguma coisa. Quando tudo se acalmou sentei na varanda, olhei pro gramado em frente à casa do meu avô que estava iluminado pelo brilho da lua, parei um pouco e respirei profundamente com aquela sensação de alívio que vem da alma. Alguns segundos depois o meu celular vibrou, avisando que havia chegado a primeira mensagem. Já era oficialmente dia 23/03. Nunca imaginei passar a virada do meu aniversário de uma forma tão inusitada. Estava barbudo, vestido com as roupas folgadas do meu avô, sentado na varanda da casa dele e olhando pro mesmo céu que sempre olho na virada de todos os anos. Só me restava agradecer a Deus.

Das pessoas que nunca saberemos como agradecer:

Logo no começo da manhã do dia 23/03 minha madrinha veio me chamar para irmos resolver o problema do carro. "É um ótimo sinal começar o dia do aniversário trabalhando, menino, vamos lá". E fomos. Na noite anterior eu havia ligado para meu tio e pedido o trator dele emprestado para ir buscar meu carro logo pela manhã. Minha madrinha falou com outro tio meu e ele em poucos minutos reuniu 6 homens para ir me ajudar. As 8h da manhã estávamos nós 7 em cima do trator indo buscar meu carro no meio do atoleiro em que ele havia passado a noite. Quando me vi novamente com os pés melados de lama, e todos eles na mesma situação só para me ajudar, lembrei de uma das frases mais repetidas do dia: Saiba sempre valorizar uma amizade. Reunir 6 pais de família logo cedo da manhã de uma quarta-feira, despretensiosamente, não é fácil. Amigos fiéis. Não só a mim, mas a uma família, uma história, à sua palavra. Consegui recuperar meu carro coberto de lama, mas sem nenhum outro problema. Quando voltamos pra casa minha avó e minha madrinha já tinham preparado um café da manhã reforçado para todos nós, em comemoração de tudo ter dado certo. Coloquei meu carro na frente da casa e fui lavá-lo. E assim passei a manhã. Todos sabiam que era meu aniversário e sempre que qualquer um passava pela estrada e me via lavando o carro parava um pouco para conversar, desejar parabéns e perguntar como eu tinha conseguido a proeza de ficar atolado no meio da noite e parabenizar minha coragem de vir andando sozinho. Eu sempre agradecia, tímido, mas ria sozinho porque no fundo sabia das minhas poucas opções. Mesmo longe milhares de quilômetros dos meus pais, irmãos e sobrinho, eu passei um dia especial só em estar junto dos meus familiares. E como se não bastasse o amor que sinto em estar nesse lugar, ainda pude ver a delicadeza dos meus avós e tios tentando fazer um almoço supresa pra mim, a companhia de todos, a tranquilidade de estar em família, a segurança inenarrável que sinto neste lugar. Realmente foi especial. Jamais saberei agradecer se não devolvendo esse amor tão forte que sinto chegar em mim.

*23/03/2016