Dos momentos que nunca esqueceremos:
Quando o dia 22/03 finalmente terminou eu respirei profundamente com aquela sensação de alívio que vem da alma. O meu dia havia sido massacrante. Uma rápida retrospectiva passou pela minha cabeça e me vi levantando novamente as 6 horas da manhã, preparando meu café da manhã ainda dormindo, começando a acordar na última garfada da banana amassada com granola e percebendo que eu já estava atrasado. Tomei um banho rápido e corri para o hospital de pediatria para meu segundo dia no novo rodízio do internato. Fui o último a chegar, mas nada havia começado ainda... Me vi visitando novamente os pacientes e descendo e subindo escadas para tirar fotos de prontuários e atualizar as informações para a staff que nos orientava. Ao final das evoluções, me vi novamente correndo até a oficina pra fazer os últimos reparos no carro antes da viagem. Isso, a viagem... Lembrar dela me fazia bem e com certeza foi o meu combustível durante todo o dia. E mesmo agora, quando lembro da sensação boa que a ideia de viajar me dava durante todo o dia, eu me sinto estranhamente feliz. Me vi novamente saindo correndo da oficina depois de quase uma hora e passando no supermercado para comprar um sal especial para uma prima. Nossa, ainda não acredito que enfrentei aquela fila gigantesca por um sal. Ou por uma prima? Depois me vi estacionando o carro as pressas na frente da agência matriz dos correios para pegar uma encomenda que havia chegado há poucos dias. Sem ter tempo de respirar corri pra casa para ajeitar o apartamento antes da viagem e fazer minhas malas. Por quê eu sempre deixo para fazer as malas em cima da hora? As vezes justifico pra mim mesmo que é porque posso ainda precisar de alguma coisa, então deixo para arrumar tudo no final. Balela! Sempre esqueço alguma coisa por deixar pra guardar tudo em cima da hora. Hoje mesmo esqueci o sabonete e o shampoo. Me vi organizando tudo no apartamento para diminuir a bagunça quando eu retornar, descendo com o lixo, com as malas, colocando água no carro e sendo simpático com o vizinho mais chato do prédio. Sai apressado e fui até a rodoviária pegar um amigo que já me esperava há quase 30 minutos para viajarmos juntos. Aproveitei cada minuto dos 10 que tive para almoçar e depois dirigi por 7 horas e 30 minutos até a minha cidade no interior do Ceará. Deixei meu amigo na casa dele, passei na farmácia para colocar crédito no meu chipe da única operadora que pega área na cidade e fui para o sítio onde meu avô mora, exausto. Sonhando com os abraços amorosos que só quem nos ama de verdade sabe dar. Já era quase 22:30h e eu respirava feliz por saber que dali a poucos minutos eu estaria em um dos melhores lugares do mundo pra mim. Meu primeiro lar, um dos lugares onde eu mais me sinto em casa. Me vi vindo pela estrada de chão, onde a única iluminação era a dos faróis do meu carro e as poucas casas que eu passava repousavam com a paz que só as casas dos sítios do interior sabem ter. Lembrei da sensação que eu tinha de que devia ter perguntado a alguém sobre a estrada, que devia ter ligado avisando que estava chegando, mas já era tarde, não pegava área da minha operadora e de toda forma eu já estava alí, não havia muita coisa para se fazer. Continuei. Quando completei dois terços da viagem cheguei em um local famoso em atolar carros em tempos de chuva. Não deu em outra. 22:30h, sozinho na escuridão de uma estrada deserta e meu carro não conseguia se mover um centímetro, ficando cada vez mais enterrado na lama em cada tentativa. Respirei uma, duas, três vezes, tentando oxigenar o cérebro para lembrar de alguma dica do que fazer, de algum vídeo que vi na internet, de alguma lição que aprendi durante a vida. Não tinha jeito. Tirei meus sapatos, abri a porta e desci. A lama de barro vinha na metade da minha perna, os pneus do carro estavam totalmente submersos, ainda pior com as tentativas que havia feito para tirá-lo dalí, sem sucesso. Abri o porta malas, peguei meus chinelos, meu carregador do celular, meu chipe, travei o carro e sai. Era minha única alternativa. Terminar a viagem a pé e tentar resolver com alguém, chegar em casa, dar alguma notícia, lavar os pés, respirar. Era longo o percurso coberto por lama. "Nunca que meu carro iria conseguir passar por aqui". Andei quase um quilômetro olhando atenciosamente para o chão tentando ser mais rápido do que qualquer cobra que pudesse encontrar, até parar e lembrar que eu não estava levando nada do que iria precisar. "E se não tiver como eu pegar meu carro ainda hoje?" Havia muita coisa para pegar antes de iniciar minha trajetória. Voltei pro carro para pegar meu quite de sobrevivência equipado com escova de dentes, creme dental, solução para lentes de contato, caixa de lentes e desodorante. Agora sim eu estava preparado para enfrentar a estrada molhada que me esperava naquela noite fria. Como quem não quisesse que eu terminasse minha trajetória, a lama ficou ainda mais escorregadia, acabei caindo e derrubando meu fiel companheiro que com seus flashs sendo usados como lanterna, iluminava minha noite. Voltei novamente pro carro, peguei o primeiro papel que vi e tirei o máximo de lama que pude do celular. Finalmente voltei pro meu percurso sem muito a temer. Poucos metros depois percebi meu celular vibrando. Milagrosamente a minha internet funcionou e pude conversar com uma prima e contar o ocorrido, avisar meu atraso e acalmar os corações que eu tinha certeza que já estavam apreensivos. Continuei, olhei pro céu e ainda puder ver um luar incrível, a terra molhada tinha um cheiro de infância maravilhoso e mesmo completamente sujo de lama e cansado, não encontrei motivos para reclamar. Quando já estava chegando, depois de alguns quilômetros de caminhada, fui recebido pelos abraços apertados e olhos cheios de lágrimas da minha avó e da minha madrinha, que estavam apreensivas já há algum tempo e me esperavam na estrada em frente de casa. Pude chegar em casa, respirar tranquilo, tomar banho, comer alguma coisa. Quando tudo se acalmou sentei na varanda, olhei pro gramado em frente à casa do meu avô que estava iluminado pelo brilho da lua, parei um pouco e respirei profundamente com aquela sensação de alívio que vem da alma. Alguns segundos depois o meu celular vibrou, avisando que havia chegado a primeira mensagem. Já era oficialmente dia 23/03. Nunca imaginei passar a virada do meu aniversário de uma forma tão inusitada. Estava barbudo, vestido com as roupas folgadas do meu avô, sentado na varanda da casa dele e olhando pro mesmo céu que sempre olho na virada de todos os anos. Só me restava agradecer a Deus.
Das pessoas que nunca saberemos como agradecer:
Logo no começo da manhã do dia 23/03 minha madrinha veio me chamar para irmos resolver o problema do carro. "É um ótimo sinal começar o dia do aniversário trabalhando, menino, vamos lá". E fomos. Na noite anterior eu havia ligado para meu tio e pedido o trator dele emprestado para ir buscar meu carro logo pela manhã. Minha madrinha falou com outro tio meu e ele em poucos minutos reuniu 6 homens para ir me ajudar. As 8h da manhã estávamos nós 7 em cima do trator indo buscar meu carro no meio do atoleiro em que ele havia passado a noite. Quando me vi novamente com os pés melados de lama, e todos eles na mesma situação só para me ajudar, lembrei de uma das frases mais repetidas do dia: Saiba sempre valorizar uma amizade. Reunir 6 pais de família logo cedo da manhã de uma quarta-feira, despretensiosamente, não é fácil. Amigos fiéis. Não só a mim, mas a uma família, uma história, à sua palavra. Consegui recuperar meu carro coberto de lama, mas sem nenhum outro problema. Quando voltamos pra casa minha avó e minha madrinha já tinham preparado um café da manhã reforçado para todos nós, em comemoração de tudo ter dado certo. Coloquei meu carro na frente da casa e fui lavá-lo. E assim passei a manhã. Todos sabiam que era meu aniversário e sempre que qualquer um passava pela estrada e me via lavando o carro parava um pouco para conversar, desejar parabéns e perguntar como eu tinha conseguido a proeza de ficar atolado no meio da noite e parabenizar minha coragem de vir andando sozinho. Eu sempre agradecia, tímido, mas ria sozinho porque no fundo sabia das minhas poucas opções. Mesmo longe milhares de quilômetros dos meus pais, irmãos e sobrinho, eu passei um dia especial só em estar junto dos meus familiares. E como se não bastasse o amor que sinto em estar nesse lugar, ainda pude ver a delicadeza dos meus avós e tios tentando fazer um almoço supresa pra mim, a companhia de todos, a tranquilidade de estar em família, a segurança inenarrável que sinto neste lugar. Realmente foi especial. Jamais saberei agradecer se não devolvendo esse amor tão forte que sinto chegar em mim.
*23/03/2016