sábado, 10 de setembro de 2016

Ele pensa demais

      Aquela era uma quinta-feira não muito diferente de todas as outras. Uma manhã ensolarada e quente como só as manhãs maranhenses sabem ser. Saímos do hospital municipal às 07:30 após terminar o plantão noturno e evoluir os pacientes internados e passamos em casa para tomar banho e comer. "O que eu levo?" "O máximo que a gente puder, lá não tem muita coisa. Na gaveta do meio da estante da sala tem algumas caixas de medicamentos, pega alguns enquanto eu termino de me arrumar." "Ok." Saímos de casa e um pouco depois da cidade entramos em uma estrada de chão e fomos quilômetros a dentro. Sentado no banco de trás do carro eu olhava praquela paisagem de floresta amazônica aparentemente pouco explorada, mas com muitas histórias pra contar. Havia acordado emotivo naquele dia. Sentia falta de um só abraço, um só colo, tinha uma só saudade.
      A estrada não estava ruim. Uma poeira avermelhada subia com facilidade denunciando a falta de chuva. Lembrei do meu Ceará, lá isso me preocuparia. Mas aqui não. Terra da muitas facilidades. E injustiças. Alguns minutos depois, chegamos. O povoado havia crescido bastante desde a última vez que eu estive alí. Fui acompanhar meu pai em um acampamento na infância. Agora já estava tudo diferente, tinha uma escola de muro branco avermelhado pelas terras vermelhas do Maranhão e um posto de saúde. "Agora a gente tem dotô toda semana. Antes era um sofrimento, o senhor tinha de ver."
      Em frente a uma árvore de tronco largo e muita sombra, sentados em baixo da varanda de uma das poucas casas de alvenaria do povoado, havia cerca de 30 pessoas, sorridentes ao ver o carro chegar. O enfermeiro pegou o esfigmomanômetro e um estetoscópio que ele levou, eu peguei meu esteto, minha caneta e a sacola com os medicamentos. Meu pai já estava entrando, cumprimentava alguns novos amigos e recebia alguns abraços. Fui apresentado para alguns e recebi vários sorrisos de boas vindas. Sorri de volta e entrei.
      Na primeira sala havia uma mesa para a técnica de enfermagem com vários prontuários empilhados e duas cadeiras, uma em cada lado da mesa. Depois de passar pela cortina que separava as duas salas eu vi um filtro de barro em uma cadeira no canto com dois copos de alumínio em cima. Havia um quarto ao lado onde se guardavam os excessos e o cômodo seguinte era o consultório médico. No fundo da sala, encostado na parede de tijolos recoberta por cimento, havia uma cadeira acolchoada e uma mesa infantil, trazidas da nova escola do povoado. Em cima da mesa já tinham colocado alguns prontuários, receituário, solicitação de exames e uma ficha de encaminhamento. Ao lado um lixeiro e do outro lado uma cadeira de madeira com algumas espátulas dentro de um recipiente de plástico. Em frente à mesa uma cadeira azul que algum dos pacientes doou para o posto. O chão era de piso duro batido, mas não mais do que a vida daquelas pessoas. A iluminação vinha pela porta que dava acesso ao quintal aonde um papagaio muito simpático gritava "dotô" e pelas frestas no telhado por onde entravam raios de luz. E de esperança.
      Fomos embora à tarde depois de atendermos várias pessoas, e mesmo ali, naquele canto de sala, escrevendo sobre uma mesa infantil de escola, sem nada de básico que um local precisa ter para ser chamado de posto de saúde, fizemos o nosso trabalho. Porque, como eu estou aprendendo na universidade, esteja aonde eu estiver, minha conduta deverá ser sempre a mesma, obviamente adaptada à realidade do paciente e não do governo. Saí naquele dia com o dever e uma promessa a mim mesmo: ser um bom médico independente das escolhas alheias e nunca deixar de lutar, porque a partir de agora é que eu vou começar a ajudar de verdade as pessoas.
      Esses dias estava lendo o livro de Maurice Druon, "O menino do dedo verde" e duas passagens me chamaram atenção, a primeira que diz: "Ser médico é travar uma batalha ininterrupta. De um lado a doença, sempre a entrar no corpo das pessoas; do outro a saúde, sempre querendo ir embora." E no nosso país ainda precisamos acrescentar a injustiça, a impunidade, a improbidade administrativa e a má fé dos governantes ajudando a desequilibrar essa balança de forças e nos forçando a lutar ainda mais, a sermos ainda mais forte. A segunda passagem diz o seguinte: "- Aprendi - respondeu Tistu - que a medicina não pode quase nada contra um coração muito triste. Aprendi que para a gente sarar é preciso ter vontade de viver. Doutor, será que não existem pílulas de esperança?" Talvez existam, Tistu, talvez sejam essas pílulas que dão tanta força ao nosso povo tão sofrido. E talvez eu receba até feliz, como você recebeu, uma anotação no meu caderno ao final do dia: "É preciso vigiar de perto este menino; ele pensa demais!"




(28/07/2016)

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