terça-feira, 22 de maio de 2012

Catando espinhos e semeando flores


      E hoje eu acordei com vontade de catar espinhos... Durante toda a minha jornada eu nunca tive coragem de enfrentá-los... Engraçado, mas mesmo com esse medo, eu sempre insisti em admirar as rosas, sentir seus perfumes e acariciar suas pétalas sedosas. Ficava sempre assim. E quando qualquer um dos seus espinhos me machucavam, qualquer um que seja, eu imediatamente esquecia as rosas, guardava em um lugar bem escondido e pensava em nunca mais tocá-las novamente.
      Talvez como punição para elas por terem me machucado. Achava que oferecendo esquecimento, fazia com que elas sentissem o mesmo que senti quando fui ferido por seus espinhos. Puro egoísmo. Quantas e quantas vezes eu não arranquei uma ou duas de suas pétalas provocando sofrimento igual ou maior do que os seus espinhos pudessem me causar só para poder tê-las mais perto de mim e elas ainda continuavam exalando seus perfumes e me oferecendo suas belezas? Mas mesmo assim, sempre que alguma delas me causava qualquer sofrimento que fosse, eu me livrava delas o mais rápido possível.
      Mas nunca me senti muito bem por isso. Sempre foi um alívio imediato, sabe? Era machucado, imediatamente guardava a rosa e tudo o que me lembrava ela ou me fazia pensar nela, e pronto. Nunca mais sofria de novo. Mas sempre que olhava novamente para ela por qualquer motivo que fosse, sempre que pensava nela ou no seu aroma, ou na textura de suas pétalas, eu sentia tudo o que senti no dia que fui machucado. Na verdade percebi, há pouco tempo, confesso, que eu não conseguia superar nada que havia passado. Eu estava sendo fraco e covarde, como diria alguns, e egoísta, como acho que fui.
      Mas hoje eu acordei com vontade de catar espinhos. Talvez as flores nem tenham sobrevivido há tanto tempo esquecidas, mas os espinhos, que sempre persistem ao tempo, com certeza ainda estão lá. E ficarão por muito mais tempo se eu não tiver coragem de procurá-los, juntá-los, sentir seus machucados, evoluir com esse sofrimento e desgastar suas pontas afiadas, para poder tocá-los, poder fazer o que quer que seja com eles e mesmo assim me sentir confortável e confiante. Evoluído.
      Parando hoje e pensando nisso, consigo ver que na minha breve jornada há vários e vários espinhos escondidos por mim, esquecidos. "Eu não mereço sofrer mais. Muito menos com isso." Tentava justificar para mim mesmo. Mas sempre foi pior. Pior porque eu apenas estava adiando um sofrimento e ainda pior porque machucava as pobres flores. Mas hoje acordei com vontade de catar espinhos. Com vontade de encarar esses medos e tentar evoluir com eles. Para começar, claro, que venham os menos dolorosos, os de lembranças menos valiosas. Mas se um dia eu te guardei ou te perdi em algum lugar, pequena flor, por você ter me machucado com seu espinho, te peço só um pouco de paciência porque hoje, e a partir de hoje, eu acordei com vontade de catar espinhos.

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