sexta-feira, 5 de junho de 2015

Devaneios

      Hoje eu encontrei um amigo. Há tempos não nos víamos. Ele é daqueles amigos que nos fazem acreditar no velho clichê de que pode passar o tempo que for e a nossa amizade e intimidade vai continuar a mesma, mesmo tendo certeza absoluta que, com o tempo, nada e nem ninguém permanece igual. Aliás, ele, o tempo, velho guerreiro, é um dos fortes que faz perfeitamente o seu trabalho.
      Esse meu velho amigo me deu aquele abraço nostálgico que eu jurava que não receberia nunca mais. Conversamos um pouco ainda como dois estranhos até eu perceber a tristeza que vivia em seu olhar. Convidei para um suco, um açaí, um sorvete ou uma cerveja. Mesmo sendo 14:00 horas, ele preferiu a cerveja, afinal, era sexta-feira.
      O meu bar predileto não estava aberto. Rodamos um pouco até parar na segunda mesa à direita de quem entra no simpático barzinho do nada simpático Romeirão, que ficava a dois quarteirões da minha casa. A cerveja estava gelada, pelo menos. Começamos a falar da vida. Aparentemente muita coisa o perturbava, mas deixei que falasse sem o pressionar. Eu tinha que estudar para umas provas, mas, como ele havia lembrado, era sexta-feira. E também me pareceu mais interessante ouvir um amigo do que passar minha tarde lendo artigos do Jornal de Medicina de Nova Iorque ou o Manual do Ministério da Saúde.
      Ele queria falar de amores, ou de decepções, ou das várias tentativas que fez durante a vida, mesmo que sem sucesso. Me lembrou dos nossos tempos de amizade quando listávamos os amores e ele ganhava de mim em disparada. Sempre foi mais galanteador, mais simpático, mas extrovertido. Na verdade aprendi muito com ele e, às vezes, também uso o que aprendi, e quem nos conhece vê um pouco dele em mim.
      Começou me falando daquele primeiro amor, bandido, por quem muito sofreu e lutou. Lembrou o quanto marcou sua vida e teima em dizer que a partir disso pode explicar muita coisa. Não concordei nesse aspecto, mas ele parecia já ter refletido muito sobre o assunto e não se importar mais com as discordâncias nesse ponto. Mas desse amor ele se diz superado. Ficou algo bonito, algo bacana entre ele e a dita cuja.
      Antes de falar do segundo amor, ele se ajeitou na cadeira, terminou de beber o segundo copo de cerveja e colocou a mão no bolso. Por algum momento pensei que ele fosse tirar a velha lista, que já deveria estar bem gasta. Mas não. Ele pegou o celular, colocou no silencioso e disse que queria se desligar um pouco do mundo. Eu dei risada e pedi mais uma cerveja, sabia que aquela conversa ia demorar mais do que planejado. Ele continuou.
      Dos pequenos amores, ele lembrava mais dos que não deram certo. Acha que talvez fosse por isso, ou talvez por se arrepender muito mais das coisas que não fez do que dos inúmeros erros cometidos. Lembrou da menina de cabelos dourados e sorriso largo por quem se apaixonou na terceira série do ensino fundamental e a quem nunca teve coragem de se declarar, ficando anos apaixonado por ela, até mudar de cidade. Falou que na adolescência procurou um contato dela e por fim revelou seu grande segredo. Ela foi muito simpática, mas estava noiva e se casaria na semana seguinte. Ele até curtiu todas as suas fotos de casamento nas redes sociais. Mais um gole antes de mais um amor.
      Lembrou daquele amor inocente do nosso tempo de amigos, que começou do nada e que ele custou pra perceber. Que tinha tudo pra dar certo, mas que ele, como sempre, estragou tudo. Me lembrou de como era chato na adolescência, de como era todo certinho. Mas também me provou sua mudança tomando algumas cervejas comigo às duas da tarde, mesmo sendo uma sexta-feira. Eu também mudei, disse. Na verdade a gente mudou muito. E bebemos mais um gole lembrando que o tempo não falha nunca e que talvez aquela tarde fosse a última ou a única e que ficaríamos muito mais tempo distante do que já ficamos desde a última vez. O gole acabou e ele voltou a falar dos seus amores.
      Ele confessou que já chorou por amor, que já sofreu muito nesse tempo e que não entende direito as atitudes de agora. Se por defesa, ou medo ou pura desilusão. Bateu o copo na mesa e disse que só quem não entende um coração partido é aquele que nunca teve um amor de verdade. Perguntei como ele estava hoje, como estava sua vida, seus medos e sonhos.
      Ele me disse que estava bem. Com saudade do tempo que a única preocupação era se iria sobrar dinheiro do almoço para tomar sorvete em frente ao colégio e chegar tarde em casa pra ficar pouco tempo e já voltar pro colégio outra vez. Naquele tempo a gente era feliz de verdade e não sabia, rapaz. Era mesmo, amigo, éramos muito felizes. Pois é, hoje as pessoas se esquecem das outras e não confiam, não se comunicam, não se entregam mais como a gente fazia... A gente cresce junto e é abrigado a aprender a viver sozinho, olha que vida injusta!? Fui obrigado a concordar. Mas concordamos também que não nos arrependemos. Felizes aqueles que sabem aproveitar cada momento da vida.
      A tristeza no olhar ele achava que vinha da rotina. Das saudades. Das distâncias. Não tinha certeza se estava sabendo lidar corretamente com o seu presente, por isso lembrava do passado e ultimamente pouco planejava o futuro. Futuro esse que, aliás, era uma das poucas coisas que o restava. Falou que tinha muito na vida e pouco a reclamar, mas talvez aquela vida não fosse mais a que ele tanto sonhou. Pra quem parecia comigo em gostar dos excessos, não era muito feliz em conviver com pouco. Poucos amigos, pouca sinceridade, pouca conversa, pouco abraço, pouca família. Ele parecia não querer muito da vida, queria muito dos outros, esperava muito dos outros.
      Me falou que ultimamente andava inquieto, querendo algo maior pra se preocupar, algo maior que fizesse seu coração bater mais forte, que o fizesse ter esperança e força de vontade em acordar todos os dias e enfrentar seus desafios. Até vem tentando se apegar em algumas poucas coisas, mas não sabe se vai resolver ou se vai valer a pena. Eu pelo menos estou tentando, sabe? Sei, sim! E isso é muito bom pra você. Tentar.
      Ele me falou que tá em uma fase bacana da vida, onde tudo o que precisa fazer é aguardar o tempo passar, cumprir uma responsabilidade aqui ou outra ali e esperar para daqui uns dias as coisas melhorarem de vez. Mas me pareceu que isso era o que o torturava. Esperar. Talvez essa espera tivesse o matando. Ele não é muito daqueles que só sobrevivem, sabe? Ele vive em busca de maiores emoções. Pelo que ele me disse, não estava encontrando muitas ultimamente, apesar das tentativas.
      Ele me falava que tudo estava bem, que tinha uma vida ótima, que tudo estava dando certo, me falava como quem quisesse convencer a si mesmo de tudo o que me dizia. Não me parecia alguém que tinha muito o que reclamar, realmente. Mas dava pra perceber aquele vazio que, pelo menos agora, ele tentava preencher com álcool.
      Depois da quarta cerveja eu passei a acreditar mais no que ele dizia. Principalmente porque depois da segunda eu já não conseguia mais o acompanhar. Disse que estava precisando daquele momento há um certo tempo. Que aquele bar de esquina, com aquela música ruim e a cara de tédio do dono enquanto fumava e limpava o balcão o fazia bem. Na verdade ele até gostou de ver a cara do dono do bar, lembrou daquela velha frase de que sempre tem alguém pior. O que a gente veio fazer aqui? Conversar, ora mais. E não reclame porque aqui tem wifi e a cerveja está ótima. É, pelo menos isso!
      Ele falou que vinha se decepcionando muito com as pessoas. E isso o preocupava. Talvez a tristeza não fosse culpa dos amores, ou não só dos amores. Ele queria acreditar nas pessoas, confiar, se entregar, viver. Ele era assim mesmo. Mas estava preocupado ultimamente. Havia se encontrado em situações difíceis. Não quis entrar muito em detalhes. Mas pelo suor na testa e a inquietação ao falar, percebi que aquele assunto não o fazia bem. Lembrou o quanto a decepção dói no coração. Rapaz, acho que mais até do que um coração partido, sabia? É... Eu sabia.
      Parou de falar dele e quis saber sobre mim. Eu disse que estava bem, estava levando. Levando mais por modo de falar mesmo, sabe? Na verdade estou bem, tem muita coisa boa dando certo na minha vida ultimamente, venho mudando muitos conceitos e aprendendo muito também. E isso é bom, né? O telefone dele tocou insistentemente até que ele atendesse. Precisava ir. Pode ir, hoje é por minha conta, quer que eu vá te deixar? Não, não se preocupe, eu pego um táxi. Me deu aquele abraço nostálgico e foi em direção à porta do bar. Vê se não some, em? Que é isso... Não vou sumir não.
      E foi. Foi levando um pouco de mim, mas deixando muito mais dele. E eu fiquei. Fiquei porque tinha que ficar. Fiquei porque precisava. Fiquei mesmo não sendo a melhor coisa que sei fazer. Mas era preciso, não é? Às vezes a gente precisa simplesmente ficar. Pedi mais uma cerveja. Quero essa ainda mais gelada que as outras, em seu Romeirão!? É a saideira!!

sexta-feira, 30 de janeiro de 2015

Metades

As metades nunca me agradaram. Tudo o que é pouco as vezes nunca satisfaz. Sou daqueles que precisa de muito entusiasmo, muita felicidade, muito amor! Meios amigos, meios caminhos, meios amores, meias vontades, meias saudades, meias verdades... Nada disso te completa, nada disso se completa. De que adianta ser cheio de metades vazias de historias incompletas? Talvez agora, você que me conhece, esteja rindo desse sonhador do mundo das reticências clamando por pontos finais. Mas talvez também você, como eu, perceba que em um momento da vida é preciso pontuar a história. E não se coloca ponto final em histórias incompletas, nem se vive plenamente com amores rasos. Até porque quando você anda a metade do caminho você para e percebe que ainda não chegou a lugar algum.