Na primeira vez que parti, quase não
me recuperei. Imaturo, inocente, novo demais. Sofri. Chorei. Passei tempos me
procurando, tentando deixar a mente no mesmo lugar que o corpo. Foi duro,
pesado, sofrido. Tão duro que contagiou o coração. Assim, era inevitável a
decisão de não me apegar, não fincar raízes, não querer ficar. Pra quê? Achava
que só eu sofria. Com isso, eu fui quem mais perdi. Perdi amizades, perdi
momentos, perdi vida. Privava-me de viver para não me apegar, esse era o lema.
Por isso, na segunda, terceira, quarta ou milésima vez que parti, já sofria
menos.
Mas inevitável também era algum
deslize nesse percurso. Mais sofrimento. O tempo foi passando, continuei no
mesmo dilema. E se você contar minhas idas e vindas, meu vai e vem, parte e retorna,
vai e fica... Literalmente uma vida na estrada. Deixando o egoísmo de lado, no
fundo eu era feliz e não sabia. Ou sabia?
Com maturidade, experiência e
conhecimento de mundo, veio a certeza de que as estradas estão ao meu favor,
estão do meu lado, diminuindo distancias, aproximando abraços e fixando
olhares. As estradas e a tecnologia. Os tempos são outros, as facilidades
multiplicadas. Hoje, pra quem vive longe, manter-se perto já não despende tanto
trabalho. E junto com a facilidade de viver um pouco perto de quem está a
quilômetros de distância, veio também a permissão de entregar-se. A vontade de
viver, de se permitir. Pra quê evitar o laço e ficar junto sozinho? Muito melhor
ficar longe junto. A partida hoje já não significa tanto. O que me importa é a
chegada. É o retorno. Os momentos juntos são incontavelmente mais compensadores
e significantes do que o tempo distante.
“Quem me diz da estrada que não
cabe onde termina?”
“Quantas são as dores e as alegrias
de uma vida, jogadas na explosão de tantas vidas?”
“A gente é feito pra acabar. A
gente é feito pra dizer que sim, a gente é feito pra caber no mar. E isso nunca
vai ter fim.”
Em cada lugar que eu vou, fica
uma parte de mim. A cada parte que deixo, é um mundo que levo comigo.