Estava sentado, lembrando. Decidi pegar uma folha em branco,
uma caneta velha. Fingindo que tinha tempo pra pensar, encostei a cabeça na
cadeira de estudos e fechei os olhos. Passava um filme. Várias imagens rápidas,
lembranças, cheiros, sabores. E uma trilha sonora. Calma. Qual musica? Uma que
falava em nunca esquecer, ou em sempre lembrar, algo assim. Mas estava longe.
Cada vez mais longe. Não conseguia lembrar. Apertei os olhos, tentando me
concentrar nas lembranças, nas memórias, tentando descobrir qual era a música e
nada. Desisti. Voltei às memórias. Vinha tanta coisa na cabeça, tanta coisa
vivida. Era primeiro de dezembro. Mês das retrospectivas, num é mesmo? O meu
ano passava em segundos. Algumas histórias passavam mais devagar, outras eram
fugazes até nas lembranças. O ano foi difícil, duro, sofrido, puxado. Hoje,
quase no fim, já bem calejado, estou eu aqui, querendo apenas tranquilidade. Vendo
tudo o que passei, o que mais marca é a quantidade de tentativas que tive.
Tentativas de ser feliz, de encontrar a felicidade onde quer que ela esteja. Algumas
histórias difíceis, dolorosas, pediam que eu nadasse contra a maré com a
promessa de que no fim eu encontraria a felicidade. Promessa boa. E eu nadei. Forte,
rápido, exaustivamente. Não desisti nenhum minuto. Fui firme, sempre em frente.
E nada. Nada de felicidade. Nada de prazer. Nada de recompensa. Tudo o que eu
fazia era nadar em direção ao nada. Cansei. Olhei pro lado e vi as pessoas
sendo felizes. Vida boa é a dos outros, né? Parei um pouco, pensei. Estava no
caminho certo? Estava dando certo? Acho que não. Em alguns momentos, desistir é
ser forte. Recolhi-me pra dentro de mim e fui organizar as coisas. Achar as
gavetas certas para guardar determinadas histórias, reorganizar sentimentos.
Fazer uma limpeza interna, um pit-stop. Foi demorado, confuso, incerto. E
enquanto isso a vida, que nunca tem pena de ninguém, dava pancadas diárias de
realidade, sem deixar tempo nem pra pensar. Cobrando dívidas antigas,
relembrando só as histórias que ninguém quer lembrar. Mas fiquei quieto. Fiquei
firme. Calado. E fui. Devagarinho fui fazendo meu caminho, vivendo uma história
por dia, enquanto ia me organizando por dentro. Vivendo coisas pequenas, coisas
simples, cuidando do jardim. E quando menos esperava uma linda borboleta,
simples, singela, aparecia em cima das primeiras pétalas que nasciam. E eu
sempre me pegava rindo sozinho. E isso me fazia um bem tão grande. No final
entendi que a felicidade estava comigo principalmente naqueles momentos.
Momentos fáceis, que fluíam, que aconteciam sem precisar de longos esforços e
de tempos intermináveis. Que não precisavam de toda a nossa energia, sem precisar nos consumir,
nos despersonificar. Entendi que quando uma coisa faz bem, ela simplesmente
faz. Vem, chega e faz. Às vezes lutamos tanto contra a correnteza, querendo
algo que sonhamos, enquanto tudo o que é nosso e nos faz bem está simplesmente ali,
pronto para nos fazer feliz. “Quando as coisas tem que acontecer, elas fluem,
elas simplesmente acontecem.”
“Você vai rir, sem perceber. Felicidade é só questão de ser!”
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