Hoje eu encontrei um amigo.
Há tempos não nos víamos. Ele é daqueles amigos que nos fazem acreditar no
velho clichê de que pode passar o tempo que for e a nossa amizade e
intimidade vai continuar a mesma, mesmo tendo certeza absoluta que, com o
tempo, nada e nem ninguém permanece igual. Aliás, ele, o tempo, velho guerreiro,
é um dos fortes que faz perfeitamente o seu trabalho.
Esse meu velho amigo me deu
aquele abraço nostálgico que eu jurava que não receberia nunca mais.
Conversamos um pouco ainda como dois estranhos até eu perceber a tristeza que
vivia em seu olhar. Convidei para um suco, um açaí, um sorvete ou uma cerveja.
Mesmo sendo 14:00 horas, ele preferiu a cerveja, afinal, era sexta-feira.
O meu bar predileto não
estava aberto. Rodamos um pouco até parar na segunda mesa à direita de quem
entra no simpático barzinho do nada simpático Romeirão, que ficava a dois
quarteirões da minha casa. A cerveja estava gelada, pelo menos. Começamos a
falar da vida. Aparentemente muita coisa o perturbava, mas deixei que falasse
sem o pressionar. Eu tinha que estudar para umas provas, mas, como ele havia
lembrado, era sexta-feira. E também me pareceu mais interessante ouvir um amigo
do que passar minha tarde lendo artigos do Jornal de Medicina de Nova Iorque ou
o Manual do Ministério da Saúde.
Ele queria falar de amores,
ou de decepções, ou das várias tentativas que fez durante a vida, mesmo que sem
sucesso. Me lembrou dos nossos tempos de amizade quando listávamos os amores e
ele ganhava de mim em disparada. Sempre foi mais galanteador, mais simpático,
mas extrovertido. Na verdade aprendi muito com ele e, às vezes, também uso o
que aprendi, e quem nos conhece vê um pouco dele em mim.
Começou me falando daquele
primeiro amor, bandido, por quem muito sofreu e lutou. Lembrou o quanto marcou
sua vida e teima em dizer que a partir disso pode explicar muita coisa. Não
concordei nesse aspecto, mas ele parecia já ter refletido muito sobre o assunto
e não se importar mais com as discordâncias nesse ponto. Mas desse amor ele se
diz superado. Ficou algo bonito, algo bacana entre ele e a dita cuja.
Antes de falar do segundo
amor, ele se ajeitou na cadeira, terminou de beber o segundo copo de cerveja e
colocou a mão no bolso. Por algum momento pensei que ele fosse tirar a velha
lista, que já deveria estar bem gasta. Mas não. Ele pegou o celular, colocou no
silencioso e disse que queria se desligar um pouco do mundo. Eu dei risada e
pedi mais uma cerveja, sabia que aquela conversa ia demorar mais do que
planejado. Ele continuou.
Dos pequenos amores, ele
lembrava mais dos que não deram certo. Acha que talvez fosse por isso, ou
talvez por se arrepender muito mais das coisas que não fez do que dos inúmeros
erros cometidos. Lembrou da menina de cabelos dourados e sorriso largo por quem
se apaixonou na terceira série do ensino fundamental e a quem nunca teve
coragem de se declarar, ficando anos apaixonado por ela, até mudar de cidade.
Falou que na adolescência procurou um contato dela e por fim revelou seu grande
segredo. Ela foi muito simpática, mas estava noiva e se casaria na semana
seguinte. Ele até curtiu todas as suas fotos de casamento nas redes sociais. Mais
um gole antes de mais um amor.
Lembrou daquele amor
inocente do nosso tempo de amigos, que começou do nada e que ele custou pra
perceber. Que tinha tudo pra dar certo, mas que ele, como sempre, estragou
tudo. Me lembrou de como era chato na adolescência, de como era todo certinho.
Mas também me provou sua mudança tomando algumas cervejas comigo às duas da
tarde, mesmo sendo uma sexta-feira. Eu também mudei, disse. Na verdade a gente
mudou muito. E bebemos mais um gole lembrando que o tempo não falha nunca e que
talvez aquela tarde fosse a última ou a única e que ficaríamos muito mais tempo
distante do que já ficamos desde a última vez. O gole acabou e ele voltou a
falar dos seus amores.
Ele confessou que já chorou
por amor, que já sofreu muito nesse tempo e que não entende direito as atitudes
de agora. Se por defesa, ou medo ou pura desilusão. Bateu o copo na mesa e
disse que só quem não entende um coração partido é aquele que nunca teve um
amor de verdade. Perguntei como ele estava hoje, como estava sua vida, seus
medos e sonhos.
Ele me disse que estava bem.
Com saudade do tempo que a única preocupação era se iria sobrar dinheiro do
almoço para tomar sorvete em frente ao colégio e chegar tarde em casa pra ficar
pouco tempo e já voltar pro colégio outra vez. Naquele tempo a gente era feliz
de verdade e não sabia, rapaz. Era mesmo, amigo, éramos muito felizes. Pois é,
hoje as pessoas se esquecem das outras e não confiam, não se comunicam, não se
entregam mais como a gente fazia... A gente cresce junto e é abrigado a
aprender a viver sozinho, olha que vida injusta!? Fui obrigado a concordar. Mas
concordamos também que não nos arrependemos. Felizes aqueles que sabem
aproveitar cada momento da vida.
A tristeza no olhar ele
achava que vinha da rotina. Das saudades. Das distâncias. Não tinha certeza se
estava sabendo lidar corretamente com o seu presente, por isso lembrava do
passado e ultimamente pouco planejava o futuro. Futuro esse que, aliás, era uma
das poucas coisas que o restava. Falou que tinha muito na vida e pouco a
reclamar, mas talvez aquela vida não fosse mais a que ele tanto sonhou. Pra
quem parecia comigo em gostar dos excessos, não era muito feliz em conviver com
pouco. Poucos amigos, pouca sinceridade, pouca conversa, pouco abraço, pouca
família. Ele parecia não querer muito da vida, queria muito dos outros,
esperava muito dos outros.
Me falou que ultimamente
andava inquieto, querendo algo maior pra se preocupar, algo maior que fizesse
seu coração bater mais forte, que o fizesse ter esperança e força de vontade em
acordar todos os dias e enfrentar seus desafios. Até vem tentando se apegar em
algumas poucas coisas, mas não sabe se vai resolver ou se vai valer a pena. Eu
pelo menos estou tentando, sabe? Sei, sim! E isso é muito bom pra você. Tentar.
Ele me falou que tá em uma
fase bacana da vida, onde tudo o que precisa fazer é aguardar o tempo passar,
cumprir uma responsabilidade aqui ou outra ali e esperar para daqui uns dias as
coisas melhorarem de vez. Mas me pareceu que isso era o que o torturava.
Esperar. Talvez essa espera tivesse o matando. Ele não é muito daqueles que só
sobrevivem, sabe? Ele vive em busca de maiores emoções. Pelo que ele me disse,
não estava encontrando muitas ultimamente, apesar das tentativas.
Ele me falava que tudo
estava bem, que tinha uma vida ótima, que tudo estava dando certo, me falava
como quem quisesse convencer a si mesmo de tudo o que me dizia. Não me parecia
alguém que tinha muito o que reclamar, realmente. Mas dava pra perceber aquele
vazio que, pelo menos agora, ele tentava preencher com álcool.
Depois da quarta cerveja eu
passei a acreditar mais no que ele dizia. Principalmente porque depois da
segunda eu já não conseguia mais o acompanhar. Disse que estava precisando
daquele momento há um certo tempo. Que aquele bar de esquina, com aquela música
ruim e a cara de tédio do dono enquanto fumava e limpava o balcão o fazia bem.
Na verdade ele até gostou de ver a cara do dono do bar, lembrou daquela velha
frase de que sempre tem alguém pior. O que a gente veio fazer aqui? Conversar,
ora mais. E não reclame porque aqui tem wifi e a cerveja está ótima. É, pelo
menos isso!
Ele falou que vinha se
decepcionando muito com as pessoas. E isso o preocupava. Talvez a tristeza não
fosse culpa dos amores, ou não só dos amores. Ele queria acreditar nas pessoas,
confiar, se entregar, viver. Ele era assim mesmo. Mas estava preocupado
ultimamente. Havia se encontrado em situações difíceis. Não quis entrar muito
em detalhes. Mas pelo suor na testa e a inquietação ao falar, percebi que
aquele assunto não o fazia bem. Lembrou o quanto a decepção dói no coração.
Rapaz, acho que mais até do que um coração partido, sabia? É... Eu sabia.
Parou de falar dele e quis
saber sobre mim. Eu disse que estava bem, estava levando. Levando mais por modo
de falar mesmo, sabe? Na verdade estou bem, tem muita coisa boa dando certo na
minha vida ultimamente, venho mudando muitos conceitos e aprendendo muito
também. E isso é bom, né? O telefone dele tocou insistentemente até que ele
atendesse. Precisava ir. Pode ir, hoje é por minha conta, quer que eu vá te
deixar? Não, não se preocupe, eu pego um táxi. Me deu aquele abraço nostálgico
e foi em direção à porta do bar. Vê se não some, em? Que é isso... Não vou
sumir não.
E foi. Foi levando um pouco
de mim, mas deixando muito mais dele. E eu fiquei. Fiquei porque tinha que
ficar. Fiquei porque precisava. Fiquei mesmo não sendo a melhor coisa que sei
fazer. Mas era preciso, não é? Às vezes a gente precisa simplesmente ficar.
Pedi mais uma cerveja. Quero essa ainda mais gelada que as outras, em seu
Romeirão!? É a saideira!!
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