Era uma vez mais um lindo conto de fadas... E esse conto de fadas, como em todos os outros, tem uma linda e inocente princesa, apaixonada por um galante e sedutor príncipe. O amor dos dois estava escrito nas estrelas, era previsto por todos da região e apoiado por todos do reino. Era lindo, sincero, apaixonante. A princesa, sedutora e misteriosa, arrematou o coração do jovem príncipe de uma forma avassaladora. As famílias estavam vibrando a relação dos dois, a sonhada união dos dois corações de ouro.
Nas tardes ensolaradas, o jovem
herdeiro do grande reino ia passear nos campos com o seu cavalo alado e sonhar
com o seu futuro muito mais que imediato, enquanto a linda princesinha ficava
sonhando e planejando seu futuro perfeito na janela do seu quarto no topo do
imenso castelo. Ao final do dia, como em todos os outros, os dois pombinhos se
encontravam e, recatados, tímidos, envergonhados, faziam suas singelas
declarações, seus carinhos rápidos e logo iam para seus aposentos ou para uma
das inúmeras celebrações que eram obrigados a ir diariamente.
Nessa rotina perfeita, no meio
desse grande e glamoroso sonho, eis que surge um bárbaro, vindo de terras
distantes, e começa a rodear o pacato reino. Todos perceberam a chegada desse
homem rude e grosseiro, com seu jeito bruto, seus maus modos, sua falta de
educação e de comportamento.
Mas, como ironia do destino, o
desumano bárbaro avistou um lindo sorriso acompanhado de olhos sinceros e
reveladores, sorrindo para tudo, para todos, cheios de alegria, e transbordando
paz na principal janela do castelo do grande rei. Não podia ser diferente, os
olhos daquela linda donzela conquistaram o brutal coração daquele homem e foram
capazes de mostrar, até, que por trás de tudo o que ele representava, havia,
também, algo de bom.
Indo contra tudo e contra
todos, o bárbaro acabou por despertar algo diferente na linda princesa e
fazendo com que ela, que sempre planejou tudo em sua vida, fosse capaz de se
arriscar em uma surpreendente aventura. Talvez amor, talvez paixão, talvez
desejo, ou talvez tudo junto fez com que a princesinha saísse de sua proteção,
de perto de tudo o que lhe era proporcionado, de perto de todos, para se
arriscar em uma aventura amorosa na simples cabana do homem bárbaro, que se
escondia nos confins do reino.
Nesse ninho de amor, a
princesinha conheceu coisas que não sabia, fez coisas que nunca imaginou fazer,
teve conversas que nunca pensou em ter, descobriu desejos, possibilidades,
prazeres, tudo antes apenas imaginado.
E por vários e vários dias,
enquanto o mágico príncipe passeava no seu lindo cavalo branco pelos campos de
seu reino, como sempre fez, a donzela princesa ia se esconder do mundo e viver
uma vida carnal, paralela, com seu amante de maus modos, bruto, sem pudor.
Mas isso deixou de ser
suficiente. O bárbaro, como não era de se estranhar, passou a cobrar mais da
princesa, passou a querer ela por completo. Não aceitou mais vê-la passeando na
frente de todos com o príncipe e lembrando-se das lindas horas que passavam
juntos. Nesses momentos ele achava que tudo não passava de ilusão. Achava pouco
para ele, que já conhecia muito da vida, e queria mais, muito mais.
Enquanto isso, a princesa não
podia fazer mais nada. Já fazia tudo o que estava em seu alcance. Jamais
deixaria o conforto, a segurança, o carinho, a intelectualidade do galante
príncipe pelo jeito bruto, sem escrúpulos, carnal, sedutor e experiente do
homem que tanto lhe cobrava.
Os dias iam passando e as
duvidas só faziam aumentar na cabeça daquela princesinha. Nada mais era como
antes, nada mais seguia o caminho que se achava que devia seguir. Mas todos
tinham que tomar uma decisão.
Era pouco para o bruto bárbaro
tê-la apenas escondido. Ele sempre queria mais, cobrava mais, pedia mais,
queria mais tempo, queria mais momentos, mais situações. Vê-la todos os dias
passeando publicamente com seu noivo não era nada bom. Ele não conseguia
entender a que ponto os lindos olhos de sua amada se contradiziam. Ele não conseguia
entender nada.
Ele queria apenas fugir com sua
amada, viver de amor e construir sua história a cada dia. Mas começou a
perceber que não era isso que ela procurava. Para sua surpresa, ela estava
completamente satisfeita em ter seus dois amores.
Mas como um homem que foi
criado em um mundo machista, bruto, onde quem tem todo o poder e é dono de toda
e qualquer situação é o homem, iria aceitar dividir seu grande amor, assim,
pela vida toda? É pedir demais. É querer que ele não seja ele. E se ela for
tudo o que sempre diz, é pedir que ela não seja ela. Para o bárbaro essa
história teria que chegar a um final. Todo esse tempo vivendo essa aventura já
tinha sido tempo demais.
Ele pediu para que ela
decidisse. Ela pediu um tempo.
Na ultima conversa dos dois
amantes, a princesinha foi fraca demais para seguir seu amante, ou forte demais
para continuar com seu príncipe. Ela se mostrou feliz, solta, leve. Olhou para
ele e disse: - Siga seu caminho, amor.
Qual seria o caminho daquele
coração de pedras que agora estava em pedaços? Para onde ele deveria seguir?
Para onde andar? O que dizer? O que pensar? Ela escolheu quem, afinal?
Ninguém. Ela deixou que a
crueldade dos dias, que a frieza das horas e a maldade do tempo massacrassem os
sentimentos em duvida, raiva, ressentimento, arrependimento, procura de ego, e
uma infinita procura de identidade.
A princesinha seguiu sua vida
como sempre foi. Olhando diariamente a janela do grande castelo com seus olhos
brilhantes e apaixonantes. Talvez para seguir o futuro, talvez para passar o
tempo, talvez para refletir sua vida, ou talvez para observar os corações
bárbaros que passeavam pelo tempo e viver outra aventura de amor. Apenas outra
aventura.
E o bárbaro de coração partido
também seguiu. Este pegou um caminho, uma estrada e voltou às suas origens, ao
seu povo. Talvez porque ele não tenha conseguido encontrar sua identidade
sozinho. Precisava ouvir de quem o conhecia quem ele realmente era. Tudo na sua
vida havia mudado. Tudo. Seguir era necessário, amar novamente talvez fosse
impossível.
Íkaro
Murilo e Nascimento
07/04/2012
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