- Apliquei soro anti-rábico nos lábios de um senhor, onde ele levou uma mordida de um cachorro. (Como diria um amigo de uma professora minha, eu não sei conversar. Apesar de curioso, não perguntei como o homem havia conseguido essa proeza de levar uma mordida nos lábios.)
- Sete pontos na mão direita de uma garotinha que sacrificou a mão para não machucar o rosto em uma queda de bicicleta.
- Primeira vez que vi uma Ultrassonografia Transvaginal ser realizada.
- Fui o segundo a ver a anatomia de um novo serzinho na barriga da mãe, com 21 semanas de gestação.
- Fui para o meu primeiro plantão noturno.
- Apliquei, pela primeira vez, uma Benzil P. Benzantina de 1.200.000 ui em um simpático homem que chegou embriagado 3:00 da manhã com um corte no braço no meu primeiro plantão noturno.
- Vi cuidarem de um senhor de 60 anos que foi brutalmente e injustamente queimado por alguém que, do nada, jogou gasolina e ateou fogo nele.
- Conversei, mesmo sem ter adiantado nada, com uma criancinha de 13 anos que ia parir seu primeiro filho, que foi gerado no momento de um abuso sexual, tentando convencê-la a deixar que os médicos tocassem nela para fazerem o parto. (A criança teve que ser sedada dois dias depois para ser realizada uma cesariana de urgência, caso contrário morreria ambos, mãe e filho, duas crianças, por ela não ter estrutura corporal para ter parto normal.)
- Atendi um senhor que levou 5 picadas de um escorpião que estava em sua calça de trabalho.
- Peguei uma amigdalite purulenta quando atendia alguns pacientes no hospital e passei dois dias com dores e mal estar, até tomar uma benzetacil e sentir o que o pobre bêbado sentiu algumas madrugadas antes.
- Conheci o tio de uma veterana minha onde eu menos poderia imaginar... Dando plantão comigo do outro lado do país.
- Acompanhei um atendimento a um homem que foi baleado nas costas, região patelar esquerda, e pude sentir quase todo o seu tórax cheio de ar e seus músculos flácidos e com a consistência de um pulmão, devido ao ar que escapou do pulmão para os músculos.
- Aprendi que em tudo existe burocracia e tudo exige burocracia. Sofri um pouco trabalhando na parte burocrática da saúde publica brasileira e sempre sorria baixinho, agradecendo por já saber que meu caminho não é por ali.
- Tive conversas que nunca pensei ter. Assumi posturas que jamais imaginei que assumiria. Vi uma parte minha que eu pensei que demoraria para chegar. Uma parte boa, que esclarece tudo, que explica sem pensar que está dando satisfação, que esclarece uma situação sem menosprezar quem quer que seja e que encara a vida como ela tem que ser encarada. Com um sorriso no rosto, coragem nas costas e amor no peito.
- Fui reconhecido pela primeira vez na rua por um dos pacientes que atendi no estagio e fiquei muito feliz e orgulhoso. "Foi o senhor que me atendeu outro dia no hospital, num foi, Doutor!?" Falou o homem sorridente que vinha em minha direção em um sábado ensolarado das ferias, já no ultimo final de semana. Sorri e já ia me identificando como o primo do medico que possivelmente teria atendido aquele homem, o que não seria de estranhar a confusão, já que dizem que pareço muito com o meu primo que também acompanhei nos estágios. O simpático homem nem deixou que eu me apresentasse quando mostrou a sutura que eu havia feito em seu braço, agora uma bonita cicatriz. "Foi o senhor sim, Doutor, eu lembro." Sorri de felicidade e depois tive um dos melhores dias das férias.
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